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Série Real Valor · Parte 1 de 18

A ideia

· 10 min
Série Real Valor startups Real Valor
Índice da série (18 partes)
  1. 01 A ideia
  2. 02 Iniciando os trabalhos
  3. 03 Lançando o Alfa
  4. 04 Botando a cara
  5. 05 As dúvidas do empreendedor
  6. 06 O Real Valor se muda para São Paulo
  7. 07 Os desafios pessoais de morar em SP
  8. 08 Os desafios de cobrar pelo produto
  9. 09 À procura da monetização perfeita
  10. 10 Da rejeição à monetização
  11. 11 Tudo que vai volta
  12. 12 Do céu ao inferno
  13. 13 Entrando no mercado financeiro
  14. 14 Não é que começou a dar certo?
  15. 15 As iniciativas de produto que mudaram o jogo
  16. 16 O evento canônico
  17. 17 Preparando para vender
  18. 18 Enfim o Exit
Eu e Gabriel numa incubação na UFRJ. A frase ao fundo resume a jornada.
Eu e Gabriel numa incubação na UFRJ. A frase ao fundo resume a jornada.

Logo depois do Real Valor ser adquirido, lembro do Pedro Waengertner falando sobre a importância de “give back” para a comunidade de startups durante um call. Essa prática é comum dentre as investidas da ACE que passam por um exit. A Ace pede apenas uma coisa: ajude mais startups alcançarem o sucesso.

Desde então, investi em algumas startups, mentorei pessoas e ajudei algumas pessoas a tirarem a ideia do papel

Decidi contar a fundo como foi a história do Real Valor até o Exit, entrando em detalhes que geralmente não são falados. A ideia é contar exatamente como foi. Com as dificuldades, erros e acertos.

Meu objetivo é conseguir mostrar que não são só os mais capacitados que vencem. Geralmente são os que tem mais força de vontade. Eu fundei uma fintech sem ter background financeiro e nem de tech. Todos os concorrentes do mercado eram mais qualificados do que eu. Mas a velocidade com que você aprende vale muito mais do que o que você já sabe no início da jornada.

Chega de introdução. Vamos à história.

O que é o Real Valor

Pra quem não sabe, o Real Valor foi uma plataforma de acompanhamento de investimentos criada por mim e pelo Gabriel Farias para ajudar o brasileiro a acompanhar sua carteira usando as melhores análises e métricas do mercado financeiro. No fim do dia, a ideia era fazer o brasileiro investir melhor.

Real Valor foi adquirido pela Empiricus em 2020
Real Valor foi adquirido pela Empiricus em 2020

Começamos o Real Valor em 2017 sem nunca ter trabalhado no mercado financeiro e nem no mercado de tecnologia. Nunca tínhamos programado antes. em 2020 vendemos o Real Valor com 150 mil usuários ativos no mês, num deal de 8 dígitos. Um ano depois éramos diretores de uma corretora.

Contextualizando

Eu comecei a investir por volta de 2014, depois da minha irmã Adriana me encher o saco falando que não deveria deixar o dinheiro que eu estava ganhando no estágio parado no banco.

Por alguma obra divina, um dia vi que o grande amigo e mentor Eduardo Turba Gonçalves estava lendo “investimentos inteligentes” e pedi para ele me emprestar quando terminasse. Li o livro, comecei a buscar informação na internet e dei de cara com o Blog de Valor do Andre Bona e comecei a ter uma base.

Lá para 2015 fui impactado com o famoso vídeo “O Fim do Brasil” da Empiricus e assinei um relatório deles. Comecei a ler recomendações de investimento toda semana e em dado momento abri uma conta na XP e comecei a investir.

Como sou bastante frugal (também conhecido como pão duro para caralho), sempre sobrava um dinheiro no final do mês e eu aproveitava para investir.

Nessa época eu estava trabalhando como consultor de gestão e lá, tive frase tatuada na minha mente: “quem não mede não gerencia”. E eu não estava medindo os meus investimentos.

Os apps e sites de corretoras da época só ajudavam a investir. Na hora de acompanhar como estavam indo as coisas, era cada um por si.

Eu precisava de algum processo para mensurar os investimentos tanto para aprender com os erros e acertos quanto para ir mexendo na carteira para melhorar os retornos.

Procurei ferramentas que pudessem me ajudar nisso e não achei nada que fosse intuitivo e simples. O que existia na época demandava quase que um MBA na ferramenta para conseguir usar.

“Po, se eu for demorar 2 semanas estudando a ferramenta para conseguir usar, prefiro fazer um excelzinho.”

Lá fui eu criar minha própria planilha. Quem já fez isso sabe o trabalho que dá. Mas não é um trabalho em vão. O processo de criação é delicioso. Sem contar o quão gratificante é ver o seu portfolio performando

Dashboard da minha carteira em 2016
Dashboard da minha carteira em 2016

Só que o trabalho não era só criar a planilha. Manter a planilha dava muuuuito trabalho. Estamos falando de 2016. Não era trivial buscar as cotações das ações na internet via fórmulas do google sheets. Uma vez por semana eu abria a planilha e atualizava todas as cotações dos meus investimentos.

Depois, fazia isso mensalmente. Depois bimensalmente… até que desisti. O resultado da planilha era muito bom, mas o trabalho começou a tornar inviável.

Call do Gabriel

Um dia, meu amigo Gabriel Farias me manda mensagem despretensiosa:

“Ai, você é o cara das ferramentas… Conhece alguma para acompanhar os investimentos?”

Ele estava começando a ajudar o pai no portfolio, mas o pai investia uma parte na corretora e outra parte no banco. O que já era difícil de fazer quando o investidor tinha conta em apenas uma instituição financeira ficava impossível quando o patrimônio estava diversificado em várias.

Expliquei para ele: “Até existe, mas para botar para funcionar é um parto. Então acabei fazendo meu próprio Excel. Se quiser, te passo”.

Então ele teve uma ideia de que na época pareceu idiota, mas o tempo provou ser genial:

“Ué, se não tem, por que não fazemos uma?”

As respostas óbvias seriam:

  1. Porque não sabemos programar
  2. Porque o Excel já resolve
  3. Porque se corretoras não fizeram até agora, como que a gente vai conseguir?

Mas a resposta foi outra:

BORA

Na verdade, eu já estava querendo sair do meu emprego porque sofria com a falta de autonomia. Além disso, tinha acabado de viver uma experiencia que mudou minha percepção de mundo:

Consegui criar uma ferramenta que garantiu a venda de um projeto milionário. Sabe o que ganhei em troca? Dica:

  • Não foi um aumento
  • Não foi um bônus
  • Não foi uma promoção.

Foram dois tapinhas nas costas.

Essa dinâmica me destruiu. Se eu fizesse algo fora de série, ganharia 2 tapinhas nas costas, mas se fizesse algo desastroso, seria demitido.

Empreender me parecia mais justo: se fizesse algo genial, ganharia mais do que 2 tapinhas nas costas.

Talvez essa revolta tenha me feito falar “bora” ao invés de outras respostas mais óbvias. Mas como a gente não sabia direito o que fazer, falei com Gabriel que continuaria no meu emprego até termos alguma noção.

O Gabriel tinha acabado de se demitir depois de um burnout tenso numa empresa de consultoria.

Temos uma ideia. E agora?

A ideia era simples. Muita gente está começando a investir, mas ninguém está ajudando essas pessoas a entender o que acontece depois que o investimento é feito.

Eu e Gabriel queríamos criar um app que facilitasse esse acompanhamento.

Como a gente não tinha uma puta ideia de como começar, recorremos aos estudos. Eu li o livro Lean Startup do Eric Ries e nós começamos a fazer um curso de como começar uma startup do Steve Blank. (https://www.udacity.com/course/how-to-build-a-startup—ep245)

Algumas coisas foram ficando claras. O caminho foi se desenhando. A ideia era apenas um detalhe. O importante é executar.

O próximo passo era entrevistar possíveis clientes e ver o que eles achavam da ideia. Se eles não gostassem, não faria sentido investir tempo e dinheiro numa solução que não teria mercado.

Durante as entrevistas, eu mostrava um Wire frame de como seria o aplicativo. Ele foi feito no próprio Excel. Era necessário um bom grau de abstração para ignorar que estava no Excel e imaginar aquilo sendo um app.

Wireframe do Real Valor
Wireframe do Real Valor

Entrevistei todos os amigos. Em pouco tempo estava entrevistando amigos de amigos e amigos de amigos de amigos.

Ficou claro que existia essa dor no mercado.

  • Algumas pessoas não acompanhavam os investimentos porque não sabiam como fazer e gostariam de acompanhar
  • As outras acompanhavam, mas tinham um trabalho hercúleo para ficar atualizando as planilhas

Demissão

Beleza. Temos uma ideia e ela parece fazer sentido com os potenciais usuários. Chegou a hora de me demitir.

Mas tinha um detalhe. No fim de 2016, o desemprego era alto. Muitos amigos que tinham se formado comigo em engenharia estavam fazendo mestrado porque não conseguiram emprego. A grande maioria que estava empregada tinha saído do Rio de Janeiro para trabalhar em São Paulo (eu era um desses).

Entenda a dualidade:

  • Continuar num emprego bom numa época difícil (mas que eu odiava)
  • Pedir demissão, criar um aplicativo para o mercado financeiro sem ter conhecimento de programação, de tecnologia e nem de empreendedorismo e sem a menor ideia de como faria dinheiro.

Óbvio que eu queria me demitir. Mas essa escolha era muito difícil. Ainda mais com a família pressionando para não fazer essa loucura.

Me recomendaram o livro 4 hour Work Week do Tim Ferriss.

Meu chefe na época adorava ler, então fui perguntar para ele se ele conhecia esse livro e o que achava dele.

“Se você ler, você vai se demitir.”

O livro responsável por eu decidir me demitir
O livro responsável por eu decidir me demitir

Detalhe que ele nem sabia que eu estava com essa vontade.

Comecei a ler o livro com aquela frase em mente e antes de terminar o livro já tinha pedido demissão.

No dia 09/12/2016 eu saí oficialmente do meu emprego na consultoria e estava pronto para começar a startup que viria a ser o Real Valor.


Esses dias mandei uma mensagem para esse ex-chefe:


Como começar?

Agora tínhamos uma ideia e tempo para executar. Mas e aí?

A gente queria fazer um app de analytics de carteira de investimento, mas não sabíamos programar. Na verdade, até sabíamos o que aprendemos na faculdade de engenharia mecânica: programação 1 e programação 2.

O Gabriel achava que fazia sentido a gente terceirizar o desenvolvimento do app porque achava que seria impossível a gente conseguir fazer.

Eu conversava com um outro amigo, Patrick Rahy, que estava terceirizando um app e me falava de todas as dificuldades que isso trazia.

Terceirizar o core product é muito ousado porque você fica na mão dos desenvolvedores. Cedo ou tarde você vai querer desenvolvedores próprios e eles não vão entender o código. Resultado? Vão acabar recomeçando do zero.

Eu tentei convencer o Gabriel que valia a pena tentar: “Cara, eu aprendi a tocar guitarra vendo vídeo no Youtube. Com certeza a gente consegue aprender a fazer apps”.

Quem conhece o Gabriel sabe que esse tipo de argumentação NUNCA convenceria ele. Então eu bolei um plano:

“Vamos tentar fazer por 1 mês. Se em 1 mês e a gente ainda estiver patinando, a gente faz de outra forma.

Ele concordou. E eu sabia que não existia a possibilidade de a gente estar patinando dali a 1 mês. A gente tinha que conseguir.

Para garantir que a gente iria extrair o máximo possível decidimos: “Vamos trabalhar juntos. Num mesmo teto.

Na minha casa ou na casa dele teriam muitas distrações. Tivemos a ideia de ir para a biblioteca da PUC porque estaria vazia, seria um local perto dos 2, com ar-condicionado (os cariocas no mês de janeiro vivem uma dinâmica parecida com a que batatas vivem dentro de uma Air Fryer) e eu tinha muitos amigos se formando lá, então conseguiria pegar o acesso ao wifi pedindo a eles.

Não começamos no dia 01/01/2017 porque a PUC não abriu. Mas a partir do dia 02/01/2017 começamos a ir para a PUC todos os dias e ficar lá durante todo o período em que a biblioteca ficava aberta.

Tínhamos a ideia, sabíamos que as pessoas usariam, tínhamos um local para trabalhar e agora só faltava fazer TUDO (sem saber fazer).

Para a segunda parte, só clicar aqui.